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Kurt não diz nada por algum tempo. Ele está perto o suficiente pra sentir o seu perfume, mas eu quero que ele vá embora.
-Não se pode ter as pessoas, só se pode amá-las, e amar significa continuar amando mesmo quando são difíceis de entender.
-...
-Eu nunca esqueci nenhum detalhe seu.
Ele está sorrindo. Sorrindo diferente das fotos, diferente de como sorri com todo mundo. Minha cabeça está no seu colo e ele brinca com meus cabelos, eu nem estou olhando pro rosto dele, mas eu sei, ele está sorrindo agora. Estou tão feliz por ele estar aqui. Oque temos é diferente das mentiras sociais, da parceria pra tornar dias menos tediosos. Eu sempre senti como se fosse real. E nada na minha vida nada além disso nunca pareceu real.
-Eu queria ter te conhecido antes. Queria que eu tivesse estado lá como você está aqui agora, ter dito que é especial e que se esperasse um pouco mais teria tido os melhores anos da sua vida. Ou pelo menos que é oque você merece. Os melhores anos da vida de qualquer um.
Nesse momento ele se inclina e me beija. Seus movimentos são doces, lentos, molhados. Inacreditável. Odeio admitir mas ele é inacreditável. E o amo tanto.
Ele sabe lidar com a minha dor.
Querido John,
Sou nova demais e você já vive, mas não quero que me veja como uma garota inocente e confusa (muito embora eu o seja, sinto que espero alguém pra me fazer admirar a verdade o bastante pra ser madura, e às vezes espero que esse alguém seja você). Sinto que moro em você como se você fosse, não só minha casa, mas toda a cidade, então por favor - rezei comigo mesma centenas de vezes, - no mínimo se importe.
Você espera que todos sejam reflexos de você, como se já fosse perfeito e não tivesse nada a acrescentar. Seu ego enche a rua e parece que não cabe mais nada, por que em uma coisa você está certo: você não tem nada a acrescentar.
Somos pessoas custosas. Eu sei, devo ser o carro mal estacionado da calçada de alguém, também. Sabe, Dé, minhas palavras são duras mas meus olhos me desmentem. Eu passei sete meses olhando pra baixo, me limitando a olhar pros meus próprios pés, mas tomei tantos caminhos errados que eu aprendi. Sete meses - desde que eu te conheci. Só queria dizer obrigada, porque você tratou de mim ainda que não sabendo disso.
Tu não ergueu meu queixo, não me olhou nos olhos, não disse aquele adeus que eu tanto precisava, porque você não se importava em ir. Mas você me deu a mão. Procurou a minha, me levou pra essas ruas decadentes e mesmo assim eu fiz tudo que você pediu de olhos fechados. Eu agradeceria um buquê de Oleandro com um sorriso no rosto, desde que fosse seu, e sabe o que é pior? Você sabe disso.
Liguei pra você e disse obrigada. Gargalhadas do outro lado da linha. Nós sabemos que vamos voltar.

Da próxima vez que decidir meter os pés aqui, verifique o tapete. Observe as pegadas, observe os desenhos incompletos traçados durante a estada de todos os outros que já ousaram meter, e que consequentemente se foram.
Eu que sou hotel beira-de-estrada, ofereci o melhor que eu pude, mas você preferiu ir porque tinha um destino final, e não era eu.
Uma observação: essa foi a primeira vez que eu quis parar a correnteza nem que por um momento, pra tomar um banho tranquilo em uma água que já me conhecia.
Do pouco que eu pude te conhecer sei que você vai compreender esse texto, mas não vai compreender oque me levou a escrevê-lo, o que me leva à parte triste: também não sei (se quero me aproximar, tentar de novo, continuar achando que faço parte da sua vida).
Lembra quando a gente se despediu? A pior despedida é quando  você não precisa olhar nos olhos da pessoa uma última vez, porque já sabe oque vai encontrar.
Me desculpe por não saber oque dizer, e não ter nada pra te oferecer que você já não tivesse.
Realmente não tenho nada além da certeza que a gente não tem mais jeito nem por onde recomeçar (risos), mas eu tô aqui... Por quê, hein?
Acho que no meio de tantas incertezas que eu tenho, nessa vida conturbada que não me dá tempo de acompanhar, nas coisas que não digo porque não saberia explicar, há uma outra certeza estranha: Eu gosto de você. Minha psicóloga disse que eu na verdade quero alguém melhor que você, e eu ri ("você não está entendendo", disse a ela, ao que ela respondeu, "e você está?", e eu acho que sim. Essa é a pequena parte da minha vida que eu posso olhar e dizer: É isso!).
Acho que prefiro que gostem de mim com muita intensidade mas por pouco tempo do que muito tempo mas me evitando e se cansando e às vezes gostando. E eu sei que a primeira opção não existe. Mas tudo bem, tudo bem. Qualquer coisa com você é bom demais, e ruim demais, os dois juntos. E eu acho que a culpa é minha. Sou insegura, não aproveito, encho o saco depois e não dou espaço nenhum! Uau, e tive que escrever pra começar a pensar com sinceridade, sabendo que eu ia te mandar, pra perceber isso.
Pra fechar, quero saiba também que te desejo tudo oque você merece (coisas boas), e que espero ser pelo menos sua amiga. Sabe aquela parte no início do texto que digo que não sei oque eu quero? Acabei de descobrir. Não ir embora de verdade, e continuar contigo nem que seja pra te ver feliz com outra.
Você olhava pra mim pacientemente, e eu, débil, cabisbaixa, implodindo, ensaiava baixinho a peça que assistia nos meus rascunhos que tinham a sua forma, que tinham a sua essência. Adverti que nem me respondesse e estremeci ao dizer que acordava sentindo seu gosto vago. Meu desejo tem o seu toque e quando chamam meu nome a voz que eu escuto é sua. Eu te quero, sim, mas já passei dessa fase. Não posso continuar sendo a Lolita de ninguém, quero que me amem por quem eu sou e não pela vertigem de uma aventura qualquer.
"Maturidade", eu disse, voltando ao meu raciocínio, "significa ser coerente". Sem desfazer o semblante sério, escrevia a quarta parte da nossa obra.
Nas noites em que brigávamos, eu sempre caminhava no mínimo cinco quarteirões pra me manter afastada do telefone e da vontade de te ligar.
Eu chegava em casa suja e cansada e mesmo assim só conseguia pensar no seu cheiro, e em como você me acolheria e eu me sentiria bem de novo.
Se eu fosse o tipo de mulher que dá o número errado de propósito, que não espera ligações e nem liga também, que não precisa atrair olhares diferenciados para se sentir maravilhosa, eu nem teria te conhecido! Mas eu anseio por algum tipo de mudança, sinal, ou sei lá oque eu estava querendo quando te liguei pra apostar quem chupava mais picolés. Eu nem te conhecia (direito), poderia ter chamado aquele pretendente do escritório mas escolhi você.
Ainda não decidi se isso foi uma má escolha, mas estar nos seus pensamentos é como estar no porto seguro que eu sempre idealizei.
Bela Deidre de Ohio,
Uma noite eu estive longe de casa, longe de todo mundo que eu conhecia, muito mais longe do que eu já tinha ido antes. E eu nem lembrava disso, por que parecia que eu finalmente tinha me achado no mundo. Eu passeei no carro de um estranho com as pernas no encosto traseiro e ele equilibrava seu copo de bebida na minha barriga exposta. Por que eu sempre vou tão longe, pra aceitar por um dia ou dois, que não foi como eu queria? Que tipo de vida é essa, onde eu vivo em todos os lugares, menos dentro de mim mesma? Por que eu sinto que sair de qualquer forma, por que eu tomo remédio pra dormir sem ter insônia, por que minhas pernas amanhecem dormentes depois de um dia em que absolutamente nada fora do normal aconteceu?
Eu não sinto falta de um alguém específico.
E pra mim, Deidre, você nunca foi nem teria sido alguém que eu colocasse em um pedestal, de diferença, de superioridade. Você podia ter outro nome, ter vindo de outro lugar, poderia não ter esses lindos olhos cansados.
Entende o que eu quero dizer?
Você é livre do meu passado divergente e das pessoas que eu conheci, livre das minhas doenças, dos meus princípios, do meu ciúme. Eu te libertaria de tudo. Até do meu amor.

Outro texto pra você

"Eu te amo muito, Dex. Eu só não gosto mais de você."
Querido John,
E eu te amo tanto que eu continuo te amando mesmo depois de tudo, e, na verdade, o que doeu mais foi sentir o controle em sua voz, correto, comportado e clínico, esse não costumava ser você. Esse cara que fala tão suavemente nas horas erradas, ele é como uma âncora. Firme no meio de uma tempestade, soberano diante do mar, e com aquela tranquilidade arrogante que eu detesto. Eu me senti como se todos os meus esforços fossem um mar e você uma âncora, por que você é tão indiferente. Parece que você se orgulha disso, você se orgulha tanto de você mesmo e de todo o seu desamor que isso te faz só mais um deles. Te faz um rei de um mundo exclusivamente seu, alheio sobre os sentimentos de qualquer outra pessoa. Daria tudo pra estar errada dessa vez. E eu odeio estar errada.
Volte pra mim, eventualmente, depois de ter voltado pra você.
xx

Sobre nós dois e nossas vidas separadas

Mas talvez a vida seja só isso mesmo, talvez seja melhor só seguir com ela. Esquecer nossos castelos da areia na praia que a gente inventou, sabíamos que as ondas os levariam. Mas não admitimos que o plexo solar, a maresia, era tudo um cenário fictício. Aquele mar que insistíamos em não levar com tanta seriedade, tinha suas ressacas, tsunamis, tempestades, redemoinhos, e um dia, sem nem ver ou sentir, ele podia nos levar. E ele te levou. E estou arrasada, corrompida, sem entender nada e cheia de coisas que não me pertencem. Em um lugar que não é o meu, acompanhada de pessoas que não chegam a ser minhas. Não como você foi, eu nunca permitirei que mais ninguém seja.