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Não é que uma hora eu goste de roxo
E na outra prefira azul
Eu sei que às vezes não pareço a mesma pessoa
Mas talvez eu seja todas elas

E talvez isso seja algo maravilhoso
Você só não sabe disso ainda

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Eu espero que, um dia, quem eu amo aprenda a amar-se como eu amo, e a se ver como eu os vejo. Que um dia eles se deem conta que há areia e cheiro de mar em seus cílios e abaixo das unhas, que seus corações também refletem a luz do sol e que às vezes cega. Eu espero que eles não morram sem antes ver as abelhas confundirem seus cabelos com flor.
E daqui a vinte anos, eu não tenho a menor ideia do que pode acontecer. Mas eu sei que não vou me lembrar desse dia; vou deitar a cabeça no travesseiro hoje com hormônios e nervos me adoecendo, e vou ignorar tudo com um semblante derrotado e o coração um pouco menor. Sei que embora seja duro e sério, eu vou seguir em frente, e que tudo some no meu riso, porque ele é tão intenso quanto qualquer trauma.
É engraçado, o que é bom se exterioriza, enquanto o que nos consome sem que queiramos só tende a se interiorizar cada vez mais.

Anotação I

Tenho algo seríssimo a declarar sobre a vida: estou e não estou sedenta por ela. Estou conhecendo o máximo que posso e estou pensando sobre oque eu vejo, provavelmente, da maneira mais rasa possível, não porque eu queira, mas porque quanto mais vejo, menos eu entendo. Talvez seja esta a minha doença. Incessante busca do lado de fora pelo que só existe do lado de dentro. E o que é o lado de dentro? É essencialmente a forma original do lado de fora. Percebe? Minha humanidade ao ver o lado de dentro da caverna - que corresponde ao lado de fora do mundo, a do meu existir, o qual seria o enquanto o lado de dentro corresponde a alma - se distrai. Se corrompe. Tenho em mim o sentimento de perda, e não sei mais onde me refugiar. Inventei essa explicação porque eu preciso de uma. Justificar e representar o sentimento de acordar chorando e dormir com medo. Algo que me faça ver as coisas de outro jeito. Talvez, alguém. (Mas isso fica pra outra história.)
Chegará um ponto que sua mágoa vai ser tamanha que você não conseguirá senti-la por completo, nem nos momentos mais privados de sua dor. Chegará o dia que você vai querer deitar-se sob sua cama - a mesma desde que paraste de crescer. A mesma que ouviu seus gemidos de choro e excitação. A mesma que você sempre quis deixar, na casa que jamais foi sua, na vida que você renegou, em um mundo que você jamais pôde compreender ou conquistar o mínimo grão de areia que fosse. Você queria querer, tentar e ser o tipo que vale a pena. Queria enxergar o sentido de tudo, e de tanto, e de você ali, fazendo coisas que às vezes... não teve nem escolha.
Talvez você tivesse passado tanto tempo tentando enxergar as raízes de uma árvore através da terra que acabou esquecendo de olhar pra cima pra ver que árvore era essa.
Sim, um dia você vai querer deitar naquela cama, mas deitar diferente, deitar uma última vez e preencher-se com remédios, rasgar o próprio estômago e provar da sensação da inconsciência.
Você sabe o quanto o mundo tem te desprezado e você conhece o sentimento de estar à margem por opção. Ele solicitou sua presença. Por um momento ou dois a concebeu para depois joga-la fora em um lugar diferente de onde achou. Mas com sentimentos mudados e mente corrompida ou não, você sabe que pertence a ele, e causar sua morte é como continuar sofrendo e fazendo parte daquilo, é uma entrega, uma humilhação final e a certeza de que você não conseguiu, que você perdeu.
Sempre prefira a dúvida.
Eu estava triste como se nenhuma outra palavra pudesse ser sobre mim, porque quando falta, essencialmente falta, tempo próprio é uma condição falível e singular, e o tempo do universo foi o que conflagrou sua alma, as manhãs que beijam seu corpo eventualmente frio com a primeira luz salgada do dia, cada centímetro de tuas retentivas, e sua sensualidade. Torna-se inerte, torna-se, sempre, todos os dias, novamente, sucessivamente, ininterruptamente, alienado, triste e alquebrado. Acostumada a desistir a cada minuto, aneguei-me em uma complacência morta, decadente.
Entretanto a essência do ser não se descreve pela sua história. Os erros que eu cometi ou deixei de cometer são apenas consequência de quem eu sou, e como me ensinei a reagir aos eventos da vida.
Nunca me forcei a ser quem eu não sou. Nunca mudei de opinião por causa da opinião dos outros. Nunca mudei minhas atitudes, nunca lutei contra mim mesma. Eu me assumi.
E mesmo que eu soubesse dos resultados, eu não faria nada diferente. Cometeria os mesmos erros. Aprenderia com eles do mesmo jeito que aprendi, queimando por dentro e com um sorriso igual.

Querido Deus,

Li em um livro que podemos, devemos, sofrer de vez em quando. Que é por isso que estamos aqui, pra aprender com nossa dor. Mas ainda acredito que me ouve quando rezo. Sei que sim.
Deus, essa é a parte que eu agradeço, porque eu era uma flor sem raízes, livre de correntes, livre de princípios, alheia a qualquer obediência. Mesmo a que me faria bem. Obcecada por liberdade, deixei minha terra, deixei minhas irmãs, acreditando que eu poderia partir, que poderia alcançar o longe. Que o desafio era ousar ser diferente, e contrariar qualquer regra e instinto de sobrevivência. Meu juízo deixei nas raízes, que já não eram mais tão minhas. Selvagem, eu acreditei em mim mesma e tive fé na minha busca até agora. Mas eu não teria como achar oque eu queria, eu não sabia aonde encontrar. Não tinha como saber. O mundo é grande demais pra uma flor sem raízes. Estava perdida. A felicidade não estava lá fora, não estava longe, e não está agora na minha mãe terra que eu deixei chorando por mim. A felicidade está nas minhas pétalas tão comuns de flor do campo, está nesse miolo mole que eu sempre achei que não me faria falta. Está nas minhas folhas murchas que a falta de água me causou.  Está no amor próprio, na autossuficiência, na humildade de aceitar mudanças internas. Em admitir os erros, em se arrepender, em chorar, em aprender e não chorar mais por isso. Em abrir um sorriso dormindo (quando eu nasci meu pai disse que quando isso acontecesse o mundo todo ficaria mais lindo. Eu achava que era só amor paterno excessivo e sua obsessão por se tornar um escritor. Só a tendência em fazer poesia. Mas ele só disse a verdade. Quando eu me tornasse feliz, o mundo todo seria mais bonito, pra mim, quero tanto abraçá-lo por ter me dado a resposta da sobrevivência). Segundo Buda, você é o que pensa, e o Senhor me ensinou que eu posso controlar meus pensamentos. Que posso me vigiar, e que quando as minhas tendências pecadoras de humana parecessem mais fortes do que eu, eu posso orar, e mostrará-me de novo como ser o que preciso.