Anotação I

Tenho algo seríssimo a declarar sobre a vida: estou e não estou sedenta por ela. Estou conhecendo o máximo que posso e estou pensando sobre oque eu vejo, provavelmente, da maneira mais rasa possível, não porque eu queira, mas porque quanto mais vejo, menos eu entendo. Talvez seja esta a minha doença. Incessante busca do lado de fora pelo que só existe do lado de dentro. E o que é o lado de dentro? É essencialmente a forma original do lado de fora. Percebe? Minha humanidade ao ver o lado de dentro da caverna - que corresponde ao lado de fora do mundo, a do meu existir, o qual seria o enquanto o lado de dentro corresponde a alma - se distrai. Se corrompe. Tenho em mim o sentimento de perda, e não sei mais onde me refugiar. Inventei essa explicação porque eu preciso de uma. Justificar e representar o sentimento de acordar chorando e dormir com medo. Algo que me faça ver as coisas de outro jeito. Talvez, alguém. (Mas isso fica pra outra história.)

Por onde andei enquanto você me procurava?

Eu só consegui me sentir como uma Lolita morena e presumo que se você soubesse do meu atraso se divertiria muito. Tudo bem. Não vou dizer que eu fiz o que fiz pra te guardar sem mágoas, nem que eu planejei isso, porque estaria mentindo.
Eu espero que mesmo sem me ver de novo e ouvir minhas desculpas, você possa me perdoar. Nada original, eu sei, mas você foi meu primeiro amor, não importa quantos caras eu diga amar depois de você, quem eu amo é quem cantou I Wanna Hold Your Hand há dois anos atrás, colheu flores e moldou origamis em papel A4. De quem guardei meu primeiro presente de namoro, que foi entregue em um estacionamento suspenso, que só cabia nós dois. Você disse que o pingente era pra representar a falta que eu te "faço", mas provavelmente, não faço mais.
Eu acho que as coisas nunca voltarão a ser como eram, nem pra nós e nem pra nada. Uma parte minha agradece por ter sido por você minhas dignas primeiras lágrimas derramadas por amor, e outra sabe que isso irá se repetir.

Meu amigo Pedro

Pedro, seu nome já é um perigo por si só. Anagrama da palavra poder, intenso por suas sílabas explosivas, e idêntico ao do primeiro soberano da pátria.
Um ano de pedir pra você soltar seu cabelo cacheado, reclamar das exaustivas cargas horárias, te encontrar sem querer e desprecavida, às vezes mais pra lá do que pra cá, e esporadicamente tentar convencê-lo do simples fato de que estou bem.

Todo mundo sabe que você anda em linha reta e sem olhar para o chão e nem pra ninguém, que se faz de durão e se orgulha de exibir a cara mais séria possível.
O que nem todo mundo sabe, Pedro, é que você não é o que aparenta. Eles não sabem que você compra cofrinhos de pelúcia que latem ao jogar a moeda dentro, que abraça tão forte e lindo a ponto de arrastar a outra pessoa pra onde quer que você goste, e que pra arrancar um sorriso basta querer.
Quero retribuir. Quero ver o lado chato desse cara tão legal.